sexta-feira, 7 de junho de 2013



O que é Teologia ?



Derivando de duas palavras gregas,  theós, “deus”,  e  légein, “discursar, dissertar”, a theologia no uso grego secular pré-cristão significava as discussões dos filósofos a respeito de questões divinas. Em Platão, o termo tinha um sentido etimológico puro: como falar dos deuses. Ele chegou a chamar as diversas histórias dos poetas helenos a respeito dos deuses, de “theologias”. Aristóteles por sua vez, a enquadrou como parte da sua filosofia, com o que se chamaria depois “filosofia primeira”. Aristóteles cria numa divisão tripartite das ciências:  a física, o estudo da natureza;  a matemática, o estudo dos números e das quantidades;  e a teologia, o  estudo de Deus. Considerava-a como a maior das ciências, a parte que trata das causas necessárias (primeiras), eternas e imutáveis.
Com o surgimento do cristianismo em meio ao forte contexto cultural greco-romano, o termo gradativamente foi sendo incorporado pela nova religião. Apesar de não ser encontrado nas Escrituras Sagradas, a idéia existe; e é assim então que theós passou a significar o “Deus judaico-cristão” que se revelou em Jesus, e  lógos, “razão”, a capacidade racional humana de discursar a respeito de Deus. Tanto em Clemente de Alexandria como em Orígenes (professor e aluno) o termo já era empregado no sentido de  ‘razão’  ou  discurso  sobre a ‘divindade”  –  embora esta definição, como se apresenta aí, seja posterior a santo Agostinho. Antes disso, com Eusébio de Cesaréia, entra em definitivo para o vocabulário da Igreja.
Como reflexão de caráter filosófico, a teologia foi adotada inicialmente pela igreja cristã da parte oriental do império romano onde havia forte influência da cultura grega. Seu significado e objetivo original,  seguia o padrão grego clássico, de estudo e reflexão sobre Deus e as cousas divinas, já mencionados acima. Com o passar do tempo tal prática chegou aos cristãos das terras ocidentais, onde o termo theologia também foi incorporado e latinizado. De fato, o surgimento da teologia esta intimamente ligado ao contexto histórico da Igreja, que durante o  II  e o  III  séculos  d.C.  sofria pressões externas e internas que requeriam definições claras de sua parte em defesa da verdade cristã.  Utilizando-se da forma do diálogo literário  pagão e da forma legal da apologia diversos escritores assumiram para si a responsabilidade de defender a nova Fé  (daí a origem do termo apologetas). Alguns destes se destacaram, como  Justino Mártir,  Irineu,  Clemente de Alexandria e Orígenes, todos porém, labutaram heroicamente lado a lado com seus irmãos mais simples em meio às perseguições e às infiltrações das heresias – agruras que caracterizavam os conturbados tempos pelos quais a Igreja passou após o período apostólico. Estes homens, líderes da Igreja pré-nicénica, atuaram muitas vezes como filósofos, pesquisando e lecionando nos primeiros centros de ensino cristão que já aquela época surgiam anexas às principais igrejas em  alguns dos grandes centros urbanos do império. Para eles o cristianismo constituía a verdadeira sabedoria, a verdadeira filosofia, portanto, quando atacados pelos descrentes, retrucavam, racionalmente refutando as falsas acusações, ao mesmo tempo em que apelavam aos governantes do mundo pagão para que revogassem os dispositivos legais sancionados contra a Igreja.
Muitos tendo sido educados na filosofia dos gregos antes de se converterem ao cristianismo, não entendiam “o passo de fé” como uma rendição ao absurdo; estavam certos de que a conversão não implicava de modo algum   na  abdicação  à  cultura   intelectual,  por conseguinte,  em  geral,  consideravam alguns  aspectos da filosofia como meios legítimos a serem usados para levar os homens a Cristo. Além disso, a seus olhos, tudo quanto os gregos haviam tacanhamente conseguido ponderar concernente às verdades universais, em séculos de estudo, passou a ser herança legítima dos cristãos; como claramente expôs Prof. Etienne Gilson.
Com respeito a esta comprovada presença da filosofia na origem do pensamento teológico, alguns ao longo da história não têm visto com bons olhos. Exemplo maior desta aversão é o erudito alemão Adolf  von Harnack, que salienta em sua monumental obra sobre a história dos dogmas cristãos (History of Dogma, 7 vols., 1894 – 99) a opinião de que os escritores apologetas de fato, fracassaram completamente em compreender corretamente a mensagem do Evangelho . Segundo ele, os primeiros Pais erraram em buscar a substância do cristianismo, exclusivamente no seu conteúdo racional, preferindo a reflexão lógica  –  esta baseada em observações do mundo natural  –   à  revelação divina (Escrituras Sagradas), como alicerce para sustentar seus argumentos. Assim fazendo, helenizaram o evangelho, dando finalmente ao cristianismo um caráter intelectual aceitável diante do mundo descrente.
Apesar da importância das questões levantadas por Harnack, no fundo elas  foram  utilizadas por ele de forma nociva, para abrir um ataque contra toda a tradição secular de prática teológica da Igreja cristã.  Em defesa, o Prof. evangélico  Louis Berkhof argumenta que aqueles “pioneiros da teologia” apesar de estarem buscando demonstrar a racionalidade da fé cristã, não estavam escrevendo tratados doutrinários e sim apologias, tendo estas um caráter sempre mais ou menos determinado pela oposição, que no caso (apologias do II e III séc. d.C.) se restringiam quase que na totalidade a responder acusações de desobediência e inconformidade civil   –  o que explica em parte, o pouco uso das Escrituras e mais o uso da reflexão filosófica.  Além do que, muitas das verdades que eles ressaltavam nas suas argumentações são ainda parte essencial do  sistema  doutrinário  ortodoxo, pois foram extraídas exclusivamente da Bíblia; atitude digna de grato reconhecimento  até  pelo  exigente  Harnack.                              
Frederick R. Orr
“Deus não espera que submetamos nossa fé a ele sem razão, mas os
 próprios limites da nossa razão tornam a fé uma necessidade”.
                                                                                   Santo Agostinho