O que é Teologia ?
Derivando
de duas palavras gregas, theós,
“deus”, e légein, “discursar, dissertar”, a theologia
no uso grego secular pré-cristão significava as discussões dos filósofos a respeito
de questões divinas. Em Platão, o termo tinha um sentido etimológico puro: como
falar dos deuses. Ele chegou a chamar as diversas histórias dos poetas helenos
a respeito dos deuses, de “theologias”. Aristóteles por sua vez, a enquadrou
como parte da sua filosofia, com o que se chamaria depois “filosofia primeira”.
Aristóteles cria numa divisão tripartite das ciências: a física, o estudo da natureza; a matemática, o estudo dos números e das
quantidades; e a teologia, o estudo de Deus. Considerava-a como a maior
das ciências, a parte que trata das causas
necessárias (primeiras), eternas e imutáveis.
Com o
surgimento do cristianismo em meio ao forte contexto cultural greco-romano, o
termo gradativamente foi sendo incorporado pela nova religião. Apesar de não
ser encontrado nas Escrituras Sagradas, a idéia existe; e é assim então que theós
passou a significar o “Deus judaico-cristão” que se revelou em Jesus, e lógos, “razão”, a capacidade racional
humana de discursar a respeito de Deus. Tanto em Clemente de Alexandria como em
Orígenes (professor e aluno) o termo já era empregado no sentido de ‘razão’
ou discurso sobre a ‘divindade” –
embora esta definição, como se apresenta aí, seja posterior a santo
Agostinho. Antes disso, com Eusébio de Cesaréia, entra em definitivo para o
vocabulário da Igreja.
Como
reflexão de caráter filosófico, a teologia foi adotada inicialmente pela igreja
cristã da parte oriental do império romano onde havia forte influência da
cultura grega. Seu significado e objetivo original, seguia o padrão grego clássico, de estudo e
reflexão sobre Deus e as cousas divinas, já mencionados acima. Com o passar do
tempo tal prática chegou aos cristãos das terras ocidentais, onde o termo theologia
também foi incorporado e latinizado. De fato, o surgimento da teologia esta
intimamente ligado ao contexto histórico da Igreja, que durante o II e
o III
séculos d.C. sofria pressões externas e internas que
requeriam definições claras de sua parte em defesa da verdade
cristã. Utilizando-se da forma do diálogo
literário pagão e da forma legal da apologia
diversos escritores assumiram para si a responsabilidade de defender a nova
Fé (daí a origem do termo apologetas). Alguns destes se destacaram, como Justino Mártir, Irineu,
Clemente de Alexandria e Orígenes, todos porém, labutaram heroicamente
lado a lado com seus irmãos mais simples em meio às perseguições e às
infiltrações das heresias – agruras que caracterizavam os conturbados tempos
pelos quais a Igreja passou após o período apostólico. Estes homens, líderes da
Igreja pré-nicénica, atuaram muitas vezes como filósofos, pesquisando e
lecionando nos primeiros centros de ensino cristão que já aquela época surgiam
anexas às principais igrejas em alguns
dos grandes centros urbanos do império. Para eles o cristianismo constituía a
verdadeira sabedoria, a verdadeira filosofia, portanto, quando
atacados pelos descrentes, retrucavam, racionalmente refutando as falsas
acusações, ao mesmo tempo em que apelavam aos governantes do mundo pagão para
que revogassem os dispositivos legais sancionados contra a Igreja.
Muitos
tendo sido educados na filosofia dos gregos antes de se converterem ao
cristianismo, não entendiam “o passo de fé” como uma rendição ao absurdo;
estavam certos de que a conversão não implicava de modo algum na
abdicação à cultura
intelectual, por
conseguinte, em geral,
consideravam alguns aspectos da
filosofia como meios legítimos a serem usados para levar os homens a Cristo.
Além disso, a seus olhos, tudo quanto os gregos haviam tacanhamente conseguido
ponderar concernente às verdades universais, em séculos de estudo, passou a ser
herança legítima dos cristãos; como claramente expôs Prof. Etienne Gilson.
Com
respeito a esta comprovada presença da filosofia na origem do pensamento
teológico, alguns ao longo da história não têm visto com bons olhos. Exemplo
maior desta aversão é o erudito alemão Adolf
von Harnack, que salienta em sua monumental obra sobre a história dos
dogmas cristãos (History of Dogma, 7 vols., 1894 – 99) a opinião de que os
escritores apologetas de fato, fracassaram
completamente em compreender corretamente a mensagem do Evangelho . Segundo ele, os
primeiros Pais erraram em buscar a substância do cristianismo, exclusivamente
no seu conteúdo racional, preferindo a reflexão lógica – esta
baseada em observações do mundo natural
– à revelação divina (Escrituras Sagradas), como
alicerce para sustentar seus argumentos. Assim fazendo, helenizaram o
evangelho, dando finalmente ao cristianismo um caráter intelectual aceitável
diante do mundo descrente.
Apesar
da importância das questões levantadas por Harnack, no fundo elas foram
utilizadas por ele de forma nociva, para abrir um ataque contra toda a
tradição secular de prática teológica da Igreja cristã. Em defesa, o Prof. evangélico Louis Berkhof argumenta que aqueles
“pioneiros da teologia” apesar de estarem buscando demonstrar a racionalidade
da fé cristã, não estavam escrevendo tratados doutrinários e sim apologias,
tendo estas um caráter sempre mais ou menos determinado pela oposição, que no
caso (apologias do II e III séc. d.C.) se restringiam quase que na totalidade a
responder acusações de desobediência e inconformidade civil – o
que explica em parte, o pouco uso das Escrituras e mais o uso da reflexão
filosófica. Além do que, muitas das
verdades que eles ressaltavam nas suas argumentações são ainda parte essencial
do sistema doutrinário
ortodoxo, pois foram extraídas exclusivamente da Bíblia; atitude digna
de grato reconhecimento até pelo
exigente Harnack.
Frederick R. Orr
“Deus não espera que
submetamos nossa fé a ele sem razão, mas os
próprios limites da nossa razão tornam a fé
uma necessidade”.
Santo Agostinho